Como usar menos tempo e dinheiro em trabalhos de bioindicação com resultados claros e confiáveis em áreas de mineração e reabilitação?

por Ananza M. Rabello, Antonio C. M. Queiroz, Chaim J. Lasmar, Rafael G. Cuissi, Ernesto O. Canedo-Jr, Fernando A. Schmidt e Carla R. Ribas

Algumas regiões tropicais apresentam uma marcada variação nas condições e disponibilidade dos recursos ao longo do ano, através de períodos chuvosos e secos bem definidos (Neves et al. 2013). Tal fato afeta direta e indiretamente os organismos sensíveis a alterações no habitat, como os insetos, que em regiões tropicais apresentam um pico de atividade durante o período chuvoso. Os insetos são diretamente afetados por mudanças na temperatura e umidade, onde alta temperatura e baixa umidade podem causar dessecamento, e em baixa temperatura a diminuição do metabolismo. Dentre os insetos, as formigas são conhecidas por responderem a esta variação com alterações em seu metabolismo e desenvolvimento levando a mudanças na abundancia, frequência, número e composição de espécies.

Assim, diferentes períodos, como as estações do ano, também influenciam o desempenho de funções ecológicas por formigas alterando seu resultado final. Algumas dessas funções são consideradas chaves para o ecossistema, tais como: formação física do solo, favorecimento do processo de ciclagem de nutrientes e decomposição, e dispersão de sementes (mirmecocoria). Em especial, a mirmecocoria tem papel crucial para o bom funcionamento do ecossistema por ser responsável pelo recrutamento, distribuição espacial e viabilidade de determinadas espécies de plantas. Com isso, abordar a diversidade de formigas juntamente com função ecológica é essencial para conhecermos a magnitude dos impactos antrópicos e suas consequências.

Embora muitos estudos tenham reportado sobre mudanças na assembleia de formigas frente a diferentes impactos, nenhum deles avaliou se a resposta das formigas, ao mesmo tipo de impacto, muda em diferentes períodos do ano. Com este intuito, avaliamos se diferentes períodos de amostragem (chuvoso e seco) podem influenciar os resultados da resposta da diversidade de formigas e remoção de sementes frente as avaliações do impacto da mineração e da reabilitação pós-mineração. Nosso trabalho foi realizado em três minas da Companhia Vale S.A. (Figura 1), em períodos de chuva (Fevereiro e Março) e seca (Julho).

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Figura 1. Cava (a) e limite (b) da área de extração de minério de ferro na Mina do Tamanduá em Nova Lima, Minas Gerais, Brasil. Mata ciliar (c) e área de recuperação sobre pilha estéril (d) na Mina da Mutuca em Nova Lima, Minas Gerais, Brasil.

Os resultados mostraram quatro padrões. No cenário do impacto da mineração, a resposta da riqueza das formigas epigeicas não é afetada pelo período de amostragem (Figura 2a), embora a composição sim. Para a reabilitação pós-mineração, as respostas da riqueza e composição das formigas epigeicas, hipogeicas e removedoras de sementes não se alteram com o período de amostragem. Em ambos cenários a riqueza das formigas epigeicas e arborícolas foi maior no período chuvoso (Figura 2a,b). Por fim, o período de amostragem não afeta a resposta da taxa de remoção de sementes no cenário da reabilitação.

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Figura 2. Riqueza de espécies de formigas em áreas não impactadas (NI) e impactadas (I) em diferentes períodos de amostragem (Chuvoso e Seco). Há maior riqueza de formigas epigeicas em NI no período chuvoso e seco (a); E a riqueza de formigas arborícolas é maior no período chuvoso (b).

Concluímos que na maioria dos casos a resposta das formigas é a mesma, independente do período de amostragem. Assim a capacidade de detectar o efeito do impacto e da reabilitação pós-mineração não sofre interferência. Porém, como a riqueza de espécies aumenta em todas as áreas durante o período chuvoso, coletar nesse período contribui para a obtenção de um diagnóstico mais preciso do impacto da mineração e do processo de reabilitação utilizando formigas nos programas de avaliação e monitoramento. Além disso, avaliar a composição a partir de amostragem no período chuvoso fornece dados mais robustos da assembleia de formigas (Schmidt et al. 2013).

Contudo, aconselhamos que a assembleia de formigas epigeicas é suficiente para avaliar o impacto da mineração, mas que o estrato arborícola deve ser amostrado para avaliação em áreas em reabilitação pós-mineração. O microhabitat epigeico é o que melhor representa a comunidade de formigas no cenário do impacto da mineração, já que no estrato hipogeico coletamos apenas uma espécie em áreas impactadas, impossibilitando a avaliação nesse estrato.

Os resultados e as conclusões apresentados nesse estudo certamente contribuirão para reduzir o tempo e os custos de trabalhos de campo, sem perder a qualidade da informação para programas de monitoramento ambiental. Além disso, tais programas precisam de respostas rápidas e confiáveis sobre as condições ambientais, o que pode ser alcançado com nossas sugestões.

Artigo

Rabello, A.M.; Queiroz, A.C.M; Lasmar, C.J.; Cuissi, R. G.; Canedo-Jr, E.O.; Schmidt, F.A.; Ribas, C.R. When is the best period to sample ants in tropical areas impacted by mining and in rehabilitation process? Insectes Sociaux 62: 227-236. http://link.springer.com/article/10.1007/s00040-015-0398-2

Referências

Neves, F.S; Queiroz-Dantas, K.S.; DaRocha, W.D.; Delabie, J.H.C. (2013). Ants and three adjacent habitats of a transition region between the Cerrado and Caatinga biomes: the effects of heterogeneity and variation in canopy cover. Neotropical Entomology 42: 258–268. http://link.springer.com/article/10.1007/s13744-013-0123-7

Schmidt, F.A., Ribas, C.R., Schoereder, J.H. (2013). How predictable is the response of ant assemblages to natural forest recovery? Ecological Indicators 24: 158–166. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1470160X12002300

Os autores

Ananza M. Rabello1; Antonio C. M. Queiroz1; Chaim J. Lasmar1; Rafael G. Cuissi1; Ernesto O. Canedo-Jr2; Fernando A. Schmidt3; Carla R. Ribas4

1Estudante de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada na Universidade Federal de Lavras, Brasil – Ananza M. Rabello ananzamr@gmail.com

2Estudante de Pós-Graduação em Entomologia pela Universidade Federal de Lavras, Brasil

3Professor da Universidade Federal do Acre, Brasil

4Professora da Universidade Federal de Lavras, Brasil

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